Como a linguagem influencia a forma como enxergamos e educamos pessoas com deficiência intelectual? Essa é uma das questões centrais do novo artigo publicado pela professora Fabiana Wanderley, doutora em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em coautoria com a professora Maria do Rosário Fátima Brandão Amorim.
Intitulado “Deficiência Intelectual: interfaces entre linguagem, dialogicidade e constituição do sujeito”, o estudo foi publicado em 11 de agosto na Revista REGEO, volume 17, número 8, e propõe uma mudança de perspectiva na compreensão da deficiência intelectual.
O trabalho questiona abordagens que historicamente concentraram a atenção nas limitações cognitivas e nos chamados déficits de desempenho. Em seu lugar, as autoras defendem uma compreensão da pessoa com deficiência intelectual como sujeito histórico, cultural, dialógico e produtor de sentidos, cuja constituição ocorre nas relações sociais, culturais e escolares.
A pesquisa, de natureza teórica e qualitativa, está fundamentada principalmente na perspectiva histórico-cultural e na epistemologia dialógica da linguagem, dialogando com autores como Vygotsky, Bakhtin, Marková, Wittgenstein, Valsiner e Leontiev.
Da lógica do déficit para a lógica da participação Um dos principais argumentos do artigo é que a linguagem não deve ser compreendida apenas como uma ferramenta de comunicação. Ela participa da própria constituição da subjetividade e da produção de sentidos. Nesse contexto, as autoras defendem que a escola precisa ser compreendida não apenas como espaço de transmissão de conteúdos, mas como ambiente de diálogo, produção cultural, mediação simbólica e desenvolvimento humano.
A perspectiva também amplia a compreensão sobre as formas de comunicação dos estudantes. Gestos, expressões corporais, silêncios, narrativas e outras formas de participação social podem fazer parte dos processos pelos quais esses sujeitos produzem sentidos e estabelecem relações com o mundo.
Para as autoras, essa mudança de olhar tem consequências práticas para a Educação Especial. O professor passa a assumir o papel de mediador dos processos de significação e aprendizagem, reconhecendo diferentes formas de comunicação, participação e construção do conhecimento. Inclusão para além do acesso
O artigo também chama atenção para uma questão fundamental: inclusão escolar não significa apenas garantir que o estudante esteja fisicamente dentro da escola. A inclusão, segundo a perspectiva defendida no estudo, envolve criar condições efetivas para que a pessoa com deficiência intelectual participe das experiências simbólicas, discursivas, culturais e relacionais da instituição escolar.
As autoras concluem que compreender a pessoa com deficiência intelectual como sujeito simbólico e produtor de sentidos exige o fortalecimento de práticas pedagógicas mediadoras, dialógicas e humanizadoras, capazes de superar modelos centrados exclusivamente no déficit.
A professora doutora Fabiana Wanderley comentou o material. “Este artigo nasce de uma inquietação que considero fundamental para a Educação Especial: o que acontece quando deixamos de olhar primeiro para aquilo que uma pessoa não consegue fazer e passamos a olhar para aquilo que ela produz, comunica, significa e constrói nas relações com o outro?”, indaga.
Professora Fabiana complementa ainda: “A deficiência intelectual não pode ser reduzida a um diagnóstico, a um número ou a uma limitação cognitiva. Existe ali um sujeito que produz sentidos, estabelece relações, participa da cultura e constrói sua própria história. Por isso, pensar uma educação verdadeiramente inclusiva significa também transformar a maneira como escutamos, como ensinamos e como nos relacionamos. A escola precisa ser um espaço de diálogo, mediação e participação”, afirma.
Ela completa. “Mais do que colocar o estudante dentro da escola, precisamos garantir que ele tenha voz, que possa participar e que seja reconhecido como sujeito de conhecimento e de cultura. É esse deslocamento do olhar — do déficit para as possibilidades de produção de sentidos — que considero uma das principais contribuições deste trabalho”, finaliza.
Sobre o artigo Título: Deficiência Intelectual: interfaces entre linguagem, dialogicidade e constituição do sujeito Autoras: Fabiana Wanderley e Maria do Rosário Fátima Brandão Amorim Revista: Revista REGEO Volume: 17, nº 8 Publicação: 11 de agosto de 2026 DOI: 10.56238/revgeov17n8-129