O Brasil gosta de celebrar números. Nos últimos anos, o país ampliou significativamente o acesso de estudantes com deficiência à escola. Hoje existem mais de 2,4 milhões de alunos na educação especial, e cerca de 96% deles estão em salas comuns.
À primeira vista, parece uma grande vitória. Mas existe uma pergunta incômoda que raramente aparece no debate público: Esses estudantes estão realmente se desenvolvendo?
A verdade é que o Brasil mede matrícula. Mas não mede desenvolvimento. Sabemos quantos alunos estão na escola, mas não sabemos:
Os números revelam um paradoxo. As matrículas na educação especial cresceram mais de 140% em dez anos. Mas quando observamos a trajetória educacional dessas pessoas, o cenário muda drasticamente.
Segundo o IBGE, cerca de 65% das pessoas com deficiência não concluíram o ensino fundamental. Entre as pessoas com deficiência intelectual, apenas 5,3% chegam à universidade. Isso significa que milhares de estudantes entram na escola todos os anos, mas poucos conseguem percorrer toda a jornada educacional.
Outro problema estrutural é o despreparo das escolas, como apontam pesquisas da Fundação Carlos Chagas. Professores enfrentam salas heterogêneas, múltiplos perfis de aprendizagem e pouca formação continuada. Na prática, muitos educadores acabam improvisando. Não por falta de vontade. Mas por falta de ferramentas.
Esse problema não é apenas educacional. É também econômico e social. Os gastos com o Benefício de Prestação Continuada (BPC) destinado a pessoas com deficiência ultrapassaram R$ 100 bilhões em 2024 e podem chegar a R$ 160 bilhões até 2028.
Parte dessas pessoas poderia ter trajetórias mais autônomas se tivesse recebido investimento consistente em desenvolvimento cognitivo durante a infância.
A inclusão do século XXI precisa ir além da matrícula. Ela precisa medir desenvolvimento. Isso exige ciência, tecnologia, dados educacionais e novas metodologias pedagógicas.
Inclusão não é colocar o aluno dentro da sala. Inclusão é garantir que ele se desenvolva dentro dela.